MUNDO PARALELO

Por Ricardo Rodrigues

 Na madrugada ninguém é de ninguém. Os postes de luz não são dos bêbados nem dos cães. Não há prefeitura para tomar conta da rua. Os carros sozinhos são alvos. Os maridos são solteiros e as mulheres são a maioria. As prostitutas não têm cafetão. Os drogados não têm vício. É como se o sol cedesse lugar para um mundo único, sem regras nem temores, é como se a noite fosse um mundo paralelo sem sair do mesmo mundo. Era assim que Dalva se sentia.

Durante a madrugada era uma mulher diferente do que podia ser durante o dia. Havia uma certa conduta a ser seguida que lhe irritava. Como se todos a estivessem observando, e esperando algum erro para lhe desaprovar. Trabalhava o dia inteiro em um escritório de contabilidade. Todas as coisas tinham um jeito certo de serem feitas, como se fosse um roteiro. Não havia espaço para improvisações. Seus colegas eram extremamente metódicos, e a impressão que tinha era de que havia horário até para irem beber água e urinar. Saía do escritório e tomava ônibus lotado. Gastava muito tempo tentando imaginar o que as pessoas estavam pensando. O que elas pensariam se começasse a cantar em voz alta? Ou se simplesmente gritasse? Seria Dalva, a Louca. Foi de tanto imaginar a imaginação dos outros que começou a fazer análise, pois estava esquecendo-se de imaginar suas próprias coisas. Uma vez por semana a doutora Bianca, sua terapeuta, lhe escutava falar coisas que para outros seriam totalmente absurdas. Mas era na madrugada que se sentia ela mesma.

Toda quinta, sexta e sábado tomava um banho demorado, vestia roupas curtas se era verão e uma roupa mais comprida se fosse inverno. No verão, adorava paetês. As saias e vestidos eram sempre acima dos joelhos. Os lábios mais pareciam duas pimentas vermelhas. Até o seu olhar mudava, conforme podia perceber diante do espelho. Nunca tinha um roteiro certo, odiava coisas marcadas. Saía pela rua sem destino. Um dia estava perambulando pela Lima e Silva, em outro, caminhava pelos chiques da Calçada da Fama, ou então sentava-se em frente à um simples ponto de cachorro quente. Bebia muito, de tudo. Cerveja, tequila, vodka. Água só na cara. Cantava em videokês, dançava a lambada aposentada, com homens o maxixe. E depois ia para o motel. Quando não adormecia voltava para a noite, e começava tudo outra vez. Destino incerto, bebidas, música. Gargalhava até ficar sem voz. Conhecia muitas pessoas nessas peregrinações, mas não as cumprimentava se esbarrassem na rua durante o dia. Eram pessoas diferentes entre o espaço de tempo que é o entardecer. Mas a noite acaba, e toda a intensidade chega ao fim. Trabalho, pessoas, ônibus e horários.

Um dia não foi trabalhar, e não foi mais na terapeuta. As ligações não eram retornadas. Dalva foi considerada desaparecida. Isso é o que acontece na noite, entre tantas outras coisas que acontecem. As pessoas passam a desgostar de sua impossibilidade de extravasar. Mas Dalva fora apenas vítima de um acaso. Em uma sexta-feira muito quente de verão, foi atingida por uma bala assaltante debaixo do Viaduto da Conceição.

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Sobre venetacoletivo

Veneta, que significa ideia repentina, dar na telha, ou, como diz a expressão pupular, dar na veneta, é uma assessoria de produção e articulação cultural. Atua sobre projetos das mais variadas vertentes, enaltecendo a qualidade e diversidade da cultura regional.
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