Fato e imaginação

Jornalistas discutem a interface entre ficção e realidade

Texto, fotos e áudio: Ricardo Rodrigues

Da esquerda para a direita: Celito de Grandi, Juremir Machado e David Coimbra

Mediada por Juremir Machado, a mesa redonda “Ficção no jornalismo e o lugar da realidade” reuniu os jornalistas David Coimbra, Celito de Grandi e Elmar Bonés, para falar sobre um tema que voltou às pesquisas acadêmicas e produção jornalística nos últimos anos: o jornalismo com linguagem de romance de ficção.

Ao abrir a conversa, Juremir, que também é jornalista, falou sobre seu último lançamento, o livro “1930: águas da revolução”, que aborda fatos e causas da origem da Revolução de 1930. Esse foi o ponto inicial da conversa, ao abordar as diferenças entre romance histórico e o romance de não ficção. “Livro histórico é um tipo de trabalho realizado, por exemplo, pelo escritor Luis Antônio de Assis Brasil, em que mistura fatos ficcionais com fatos reais. Um dia ele me falou sobre isso, e disse que coloca um ponto verdadeiro em cada página”.

Já o romance de não ficção, segundo o jornalista, “é aquele que conta uma história real, apenas se valendo da linguagem de um romance”, explica. A partir dessa introdução, ficou a pergunta: As pessoas estão cansadas da ficção, ou a realidade é mais atraente?

À direita:  Elmar Bonés

David Coimbra falou sobre seu livro Canibais, que narra um episódio conhecido do passado de Porto Alegre. Em meados do século XIX, um açougueiro e sua esposa assassinaram dezenas de pessoas e utilizaram os cadáveres na produção de lingüiça, transformando os clientes em canibais involuntários. “Nesses casos, a história não precisa ser verossímil, os fatos falam por sim, já a realidade sim”, afirma o escritor. “Por isso as pessoas se interessam por história, porque elas sabem que aquilo realmente aconteceu, mesmo soando tão incrível”, disse.

O fascínio pelo passado

Elmar Bonés seguiu a afirmação de Coimbra, e falou sobre a inversão de processo na linguagem jornalística. “O que acontece agora é que a ficção busca elementos da história, antes era o contrário”. Para ele, o Brasil está se redescobrindo por meio do passado. “Todos estão em busca de sua identidade, e teremos ainda um outro acontecimento. Com a realização da Copa do Mundo, em 2014, os países estarão de olho em nossa cultura, e a curiosidade irá aumentar, gerando uma demanda”. Bonés afirma que a população não tem ideia de como sua história se desenrolou, e que está cabendo ao jornalista contá-la.

O próximo ponto discutido evidenciou a noticia e a informação. Juremir disse que “notícia está mesmo na internet, no impresso a procura é pelos cronistas”. Coimbra lembrou o fato de que “o jornalista é treinado para escrever ao grande público e se fazer entender, e que é melhor realizar isso com um texto ‘saboroso’, divertido, e com informação”. Celito de Grandi concorda, e diz que “informação já está nas rádios e internet, e o que torna essa linguagem da ficção e jornalismo tão fascinante é o fato dela preservar a memória”.

Linguagem padronizada

Juremir, ao falar sobre a imprensa atual, afirmou que “os textos dos jornais se tornaram acépticos, padronizados. É como se o jornalista preenchesse um formulário”. Para Elmar, “o jornalismo está reduzido ao artificialismo, e o único diferencial é o colunista”. Já Celito cita dois problemas enfrentados nas redações. “O espaço de caracteres para escrever é pequeno, e dissemina-se a prática da entrevista à distância, por telefone ou e-mail. Nada substitui o contato, em que o repórter pode, inclusive, descrever o ambiente”.

Ao final, em uma entrevista gravada, Juremir Machado contou ao Veneta a sua opinião sobre o espaço para a prática do jornalismo literário na imprensa diária. Ouça no link abaixo.

Saiba mais:

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– Visão do Pampa, de Rivadavia Severo, por R$ 25,00

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Sobre venetacoletivo

Veneta, que significa ideia repentina, dar na telha, ou, como diz a expressão pupular, dar na veneta, é uma assessoria de produção e articulação cultural. Atua sobre projetos das mais variadas vertentes, enaltecendo a qualidade e diversidade da cultura regional.
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