O Mágico da Feira

Homem atua há 28 anos na profissão, e há 15 ilude os olhos de passantes na Rua da Praia. Durante a Feira do Livro, seu espaço de atuação é o mundo das letras

Texto e ilustração: Ricardo Rodrigues

Conheci O Mágico da Feira, como assim irei chamá-lo durante essa matéria (por vontade própria de nosso personagem em manter o anonimato) há pouco mais de um ano, mas sempre de passagem. Seu local de trabalho é a Rua da Praia, próximo ao shopping, local onde, durante todo o dia, apresenta truques com cartas e outros objetos, captando a atenção e iludindo os olhos de quem passa.

Nessa época do ano, entre final de outubro e a metade de novembro, seu trabalho é naturalmente incorporado ao mundo das letras, quando a estrutura da Feira do Livro se estende pela Praça da Alfândega e arredores feito um circo muito grandioso. Na tarde do dia 3 de outubro resolvi que era hora de conhecer mais sobre esse trabalhador, e fui à Praça com esse propósito.

Me aproximei da sua pequena banca, instalada ao lado da Caixa Econômica Federal, e me identifiquei, dizendo que gostaria de conversar rapidamente para escrever uma reportagem. O Mágico da Feira olhou para o lado pensativo, como quem desconfia, e disse: “É para o que mesmo? Preciso passar meu contato?”. Respondi de imediato que não, seria apenas uma conversa sobre seu trabalho. Imaginei que pudesse ter algum tipo de problema, mas O Mágico em seguida explicou: “Já fizeram várias vezes matérias comigo, inclusive em outros anos”.

Pensei que minha pauta estivesse oficialmente derrubada, mas insisti, e vi que precisava apenas de um outro ponto de vista para contar essa história. Sua reação inicial, com desconfiança e receio em responder minhas perguntas, logo ganharam uma justificativa. “Uma vez um estudante de jornalismo, assim como você, veio até mim, me perguntou diversas coisas, fez uma entrevista grande, e prometeu que me traria a reportagem em seguida, mas nunca o fez”. Havia ali, então, um descontentamento com aquele descaso, de alguém que se propôs a falar sobre seu trabalho e sua vida sem obter o reconhecimento de volta.

Me desfiz dos óculos de sol que usava para me sentir mais próximo do meu entrevistado. Parece ter surtido efeito. O Mágico da Feira me contou que atua no ramo da mágica há 28 anos. Quando perguntei o que ou quem lhe apresentara as façanhas do mundo da ilusão, ele prontamente falou: “foi a necessidade. As dificuldades da época me levaram até o caminho dessa arte. Estava desempregado, e a mágica se tornou o meu sustento, função que executo até hoje”, conta o homem, aos seus 47 anos de idade, e que manuseava cartas e objetos coloridos enquanto conversava comigo, talvez na tentativa de despertar em mim aquele interesse quase infantil que só a mágica é capaz de fazer nascer.

E é justamente esse interesse despertado que gera renda ao trabalhador dos truques. Quando um passante se interessa por seus segredos profissionais, ele encontra a oportunidade de comercializar alguns objetos e ensinar, inclusive, alguns truques básicos dessa arte. “Esse trabalho na rua acabou também me possibilitando fazer demonstrações em eventos, o que aumentou a possibilidade de fazer negócio”, conta ele, ainda manuseando seus objetos.

O Mágico da Feira, já à vontade para conversar, contou que este trabalho sustentou e ainda sustenta uma família composta pela esposa e quatro filhos. Perguntei o que eles achavam da função exercida pelo pai, ainda receoso em não cometer nenhum deslize ou me tornar invasivo demais, e ele respondeu, com segurança: “meus filhos sempre sentiram orgulho da minha profissão. Tenho um pequeno de um ano e meio, que ainda não entende o que isso significa. Mas os outros, mais velhos, sim. Dois vivem em São Paulo e um no interior do Estado, e todos sempre se orgulharam em contar o que eu faço. Quando vou na casa deles sempre faço as demonstrações, e percebo que eles sentem orgulho do pai mágico”.

Me despedi do Mágico da Feira agradecendo a entrevista, e me comprometi, de imediato, a dar um retorno deste trabalho. Termino essas linhas pensando se fiz jus à sua pessoa, ao seu trabalho, e a resposta é certamente não. Afinal, em tão pouco tempo, é difícil investigar a vida de alguém, principalmente quando esse alguém tem na capacidade de iludir os sentidos a sua forma de viver. Mas foi uma boa entrevista, e a prova disso é que, antes de finalizar, O Mágico da Feira mencionou seu nome. “Pode me chamar de O Mágico mesmo, mas se quiser pode me chamar pelo meu nome, que é Marco”.

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Sobre venetacoletivo

Veneta, que significa ideia repentina, dar na telha, ou, como diz a expressão pupular, dar na veneta, é uma assessoria de produção e articulação cultural. Atua sobre projetos das mais variadas vertentes, enaltecendo a qualidade e diversidade da cultura regional.
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