O teatro da música e da vida

Saga do cantor Filipe Catto, costurada por elementos criativos pungentes e uma bela narrativa pessoal, ganha linhas de destaque na história da música brasileira

Produção: Ana Paula Scheffer e Ricardo Rodrigues

Texto: Ricardo Rodrigues

Fotos: Ieve Holthausen/Divulgação

 

Sinopse

Os primeiros passos da carreira musical do cantor e compositor gaúcho Filipe Catto indicam uma estrada muito maior do que a trilhada nos últimos dois anos. A verdade é que Filipe, aos 22 anos de idade, possui uma grande vivência na música, e o resultado está no seu primeiro trabalho, o EP Saga, lançado em 2009, inspirado por fortes ritmos musicais da fronteira gaúcha. Não apenas Saga, mas também o universo criativo do artista como um todo, lhe rendeu o troféu de Artista Revelação na edição 2009 do Prêmio Açorianos de Música, entregue no final de abril, no Teatro São Pedro.

O Coletivo Veneta, em meio à canetas, gravadores e refrigerante, conversou com o cantor em dois momentos. Antes do resultado do prêmio, tendo como cenário a Casa de Cultura Mário Quintana, centro de Porto Alegre, ocasião em que falou sobre a gravação do EP, os preparativos para uma viagem à Buenos Aires – onde se apresentaria com artistas do porte de Vitor Ramil e Monica Tomasi – e suas impressões sobre o mercado musical. Depois, uma nova entrevista aconteceu após o resultado do Açorianos. Bem articulado ao falar sobre seu trabalho e sobre sua vida, suas frases se juntam e costuram uma bela história, e toda história parte de um princípio identificável, mas sem um ato final definido.

Ato 1 – Primeiras notas

Criado em família musical, Catto começou a cantar ainda criança. “Aos 10 anos já compunha algumas coisas, então eu nunca tive dúvida que essa seria minha profissão, nunca tive um plano B”, disse. Na adolescência integrou algumas bandas com amigos, e já tinha nas veias a influência de artistas como Chico Buarque, herança genética do pai. “Eu escrevo o que eu gosto de cantar, não necessariamente o que gosto de ouvir. Chico, Caetano e Clara Nunes é o que eu mais ouço em MPB”. A transição para a vida adulta foi marcada por artistas como Cat Power e PJ Harvey, essa última influência na questão das letras e da postura. “Ela cria um conceito muito legal para seu trabalho, e é algo que eu faço também”, explica, porém ressaltando que sua influência maior é o trabalho da Elis Regina.

Ato 2 –Vida de (jovem) artista em Porto Alegre

De formação autodidata, Catto iniciou seu aprendizado na música cantando sozinho, imitando exercícios de voz que assistia em um programa de televisão. Sobre as dificuldades que encontrou no caminho, ele afirma que viver de música em Porto Alegre, sem apoio de gravadora, é uma batalha diária. “Tem momentos que é tudo muito difícil e a gente pensa em desistir, mas aí penso que tenho algo a meu favor: o timbre de minha voz, que é o que me faz levantar a cabeça e seguir em frente”.

Aos 16 anos, a saga profissional começou de fato. “Eu pedia espaço para cantar no Ocidente, dentro da programação do Sarau Elétrico. De tanto pedir para a Kátia Suman e, na época, o Frank Jorge, acabei participando da canja ao final do evento. É uma casa que gosto muito de cantar, o Ocidente tem toda uma história”. Depois disso, apostou no processo na gravação de músicas com divulgação gratuita na internet. “Postei algumas faixas no MySpace, e o João Ricardo, da companhia Espaço em Branco, me chamou para fazer a trilha sonora da peça Andy/Edie”, e complementa, dizendo que “essa parceria foi muito importante, porque foi o primeiro contato com o palco e o teatro, pois estava me apresentando no Teatro de Arena”.

Essa característica marcou definitivamente o trabalho do cantor. Ao vivo, Catto explora, por meio do intimismo entre ele a platéia – prefere cantar acompanhado apenas por um violão –, toda a força da expressão, facial e corporal. E levou isso para a sua primeira apresentação solo, no Bar Ocidente. “Foi um show incrível, apesar do público ser bem menor do que o que tenho hoje, foi uma ótima recepção”, conta o cantor, que poucos dias depois partiu para uma temporada em Nova York.

 

Ato 3 – Novas experiências na grande metrópole

Durante os oito meses que ficou na cidade norte-americana Filipe sentiu que uma história havia sido interrompida; não trabalhou com música nem compôs, apenas tocou informalmente em alguns locais. “Eu voltei de lá com uma vontade muito grande de tocar e compor. Eu senti falta do povo brasileiro, do cheiro do Mercado Público, então, NY me abriu os olhos para o Brasil de uma forma que eu não esperava”.

Na época, íntimo do violão, escreveu diversas canções, e organizou uma apresentação chamada Ouro e Pétala, formada por sambas, no Teatro Hebraica, em Porto Alegre. A realização desse espetáculo aproximou Catto de duas figuras importantes na consolidação de sua carreira, Sergio Guidoux e Kika Lisboa, produtor musical e produtora executiva, respectivamente. “Foi aí que eu vi que realmente tinha uma história para acontecer”.

Ato 4 – Saga: o disco

No final de 2008 iniciou o processo de gravação do seu primeiro trabalho, o EP Saga. Composto por sete canções com forte melodia e letra, é um passeio por ritmos que marcam a história da fronteira gaúcha e dos países hermanos. “Esse disco não resume o meu trabalho, ele é algo muito especifico. Falei para o Sérgio, meu produtor musical, que não queria nada bonitinho, mas sim um chute na cara”.

 “Esse disco não resume o meu trabalho, ele é algo muito especifico. Falei para o Sérgio, meu produtor musical, que não queria nada bonitinho, mas sim um chute na cara”

 

O cantor explica que, apesar desse objetivo, não encontrava uma coerência para o trabalho como um todo, o que só aconteceu quando escreveu a faixa título. “Percebi que era essa a peça que faltava. Para mim, é uma música muito poderosa. No dia que a compus, tive a sensação de ouvir a sua melodia, mas a letra não vinha, tinha uma música nascendo ali. E quando nasceu, resumiu toda uma trajetória. Ao mesmo tempo que o disco é doloroso, fala de vitória”. Saga era inicialmente um samba. No decorrer do trabalho, durante a escolha da instrumentação, a opção foi por algo mais clássico. “Há ritmos fortes, como o tango, e todos os sentimentos retratados são meus sentimentos”, afirma. O resultado final é uma peça completa, onde a expressão desses sentimentos aparece inclusive na arte gráfica do álbum, criada pelo próprio cantor.

Faixas

Intro

Saga

Ressaca

Ascendente em Câncer

Crime Passional

Teu Quarto

Roupa do Corpo

Para baixar, acesse www.filipecatto.com.br

 

Ato 5 – Buenos Aires

Na primeira quinzena de março, Filipe participou de um projeto musical que lhe possibilitou dividir o palco com artistas de peso da música argentina e também gaúcha. O show ocorreu no dia 12, no Café Vinilo, em Palermo. “Eu me senti honradíssimo em ter participado do projeto, pois eu estava inserido numa leva de artistas muito importantes, como a Monica Tomasi, o Vitor Ramil, entre tantos outros. O público de Buenos Aires é muito especial, porque são pessoas que gostam demais de música, e vivem isso intensamente”, conta.

A sensação pré-show era de desconhecimento, conforme relata. “Eu não sabia o que ia encontrar quando subi no palco, e me surpreendi com uma recepção muito íntima deles. Quando eu cantava, não sentia que estava ali fazendo um número de música exótica, estrangeira, mas sim que eu falava exatamente a mesma língua deles”. Parte disso Filipe atribui às similaridades entre a música praticada naquele país e seu próprio trabalho. “Eu me senti um igual na Argentina, talvez pela dramaticidade que é típica da música deles, e que eu gosto muito e trago para a minha, então o show fluiu de uma maneira muito bacana, as pessoas sentiam as coisas comigo numa intensidade linda”. O cantor fez, ainda, uma participação no show da Adriana Deffenti, no Notorious, dias depois.

Ato 6 – Música e internet

Catto começou sua carreira em uma momento onde muitos artistas foram descobertos através da internet, por meio de ferramentas virtuais como MySpace e Youtube, disseminando seu trabalho de forma independente e gratuita. “Para artistas novos como eu é mais fácil, porque o que importa é que ouçam o meu trabalho”. O EP Saga pode ser baixado gratuitamente no endereço http://www.filipecato.com.br. O cantor conta, ainda, que ficou surpreso com a origem de muitos downloads. “Muita gente do nordeste baixou meu trabalho, o que é maravilhoso. De outra forma seria mais difícil chegar até esse público.

A justificativa para a divulgação online e, no seu caso, gratuita, está no fato de que o álbum, atualmente, não traz retorno financeiro significativo para o artista. “O que dá retorno hoje são os shows. O disco funciona como divulgação, assim como outras ações que o artista executa”.

A partir dessa iniciativa, uma corrente de posts e resenhas ganhou a rede, replicando notícias e recomendando o trabalho do artista. Desde blogs pessoais até websites de grandes veículos de comunicação, o nome Filipe Catto era presença confirmada entre as grandes novidades da música brasileira.

 

“Muita gente do nordeste baixou meu trabalho, o que é maravilhoso. De outra forma seria mais difícil chegar até esse público”

 

Ato 7 – Reconhecimento

A 19ª edição do Prêmio Açorianos de Música ocorreu no dia 28 de abril, no Teatro São Pedro, e reconheceu artistas que de destacaram durante o ano passado em diversas categorias. Com homenagem especial ao pianista, compositor e arranjador Geraldo Flach, gêneros como instrumental, jazz e erudito estavam presentes. Na categoria Revelação, Filipe foi o premiado.

O cantor afirma que, daqui para frente, terá não apenas mais incentivo, mas também novas oportunidades. “Acho que as portas, aos poucos, estão se abrindo pra mim. Sou uma pessoa em início de carreira, existem muitas barreiras quando se está nessa situação, e o Açorianos é uma maneira de burlar algumas delas, com certeza. Ganhar como revelação foi pra mim mais que uma recompensa, mas um voto de confiança ao futuro do meu trabalho como cantor e compositor. É um endosso que vem em excelente hora”, disse, e completou: “eu fiquei muito feliz de ter ganho, porque foi bacana de ter sido reconhecido pela cidade onde eu vivo, onde eu comecei e onde eu tenho um público que eu amo demais”.

 

Agradecimentos: Ana Paula Scheffer, por dividir comigo, de forma brilhante, a primeira entrevista com Filipe Catto.

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Sobre venetacoletivo

Veneta, que significa ideia repentina, dar na telha, ou, como diz a expressão pupular, dar na veneta, é uma assessoria de produção e articulação cultural. Atua sobre projetos das mais variadas vertentes, enaltecendo a qualidade e diversidade da cultura regional.
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Uma resposta para O teatro da música e da vida

  1. Jucinara disse:

    Parabéns pela matéria! Dá gosto de ler!
    E Filipe Catto merece todo sucesso!

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