Tão Longe, Tão Perto

por Caroline Frantz

Nós sempre fomos assim um pro outro. Ilustres desconhecidos. Melhores amigos. Paixão imediata. Carinho infindável. Saudade silenciosa. Coisas que só a gente poderia entender.

Desde que nossos olhos se encontraram, pensamos que ia acontecer. Não naquele momento, mas um dia, quem sabe. Porque como você mesmo diz, tudo tem uma hora certa. Mesmo que não tenha sido da maneira ideal, foi como conseguimos construir nosso pequeno castelo.

A calma e graça deram lugar à inquietude e paixão. Nossos encontros, antes escassos, se tornaram tão frequentes quanto o Sol na minha janela. Sua boca inventava desculpas, não para fugir de mim, para me ver. Seus olhos não sabiam mais esconder. Nem os meus.

Fomos tão afoitos e ingênuos. Sinceros e loucos. Amantes e amados. Esquecemos do mundo. Esse que nos cobra tantas atitudes. Que nos lembra do trabalho cansativo na manhã de segunda-feira.

Nossa bagunça, que a gente entendia, não fazia sentido nenhum. Ou fazia todo o sentido do mundo. Tudo tão complicado que quando tentamos descomplicar, já era tarde. A culpa foi minha? Foi sua? Não interessa mais. O tempo passou e levou consigo toda essa pressa e esse mal-estar. O que restou? Nós. Separados, juntos. Daquele jeito que sempre fomos.

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MUNDO PARALELO

Por Ricardo Rodrigues

 Na madrugada ninguém é de ninguém. Os postes de luz não são dos bêbados nem dos cães. Não há prefeitura para tomar conta da rua. Os carros sozinhos são alvos. Os maridos são solteiros e as mulheres são a maioria. As prostitutas não têm cafetão. Os drogados não têm vício. É como se o sol cedesse lugar para um mundo único, sem regras nem temores, é como se a noite fosse um mundo paralelo sem sair do mesmo mundo. Era assim que Dalva se sentia.

Durante a madrugada era uma mulher diferente do que podia ser durante o dia. Havia uma certa conduta a ser seguida que lhe irritava. Como se todos a estivessem observando, e esperando algum erro para lhe desaprovar. Trabalhava o dia inteiro em um escritório de contabilidade. Todas as coisas tinham um jeito certo de serem feitas, como se fosse um roteiro. Não havia espaço para improvisações. Seus colegas eram extremamente metódicos, e a impressão que tinha era de que havia horário até para irem beber água e urinar. Saía do escritório e tomava ônibus lotado. Gastava muito tempo tentando imaginar o que as pessoas estavam pensando. O que elas pensariam se começasse a cantar em voz alta? Ou se simplesmente gritasse? Seria Dalva, a Louca. Foi de tanto imaginar a imaginação dos outros que começou a fazer análise, pois estava esquecendo-se de imaginar suas próprias coisas. Uma vez por semana a doutora Bianca, sua terapeuta, lhe escutava falar coisas que para outros seriam totalmente absurdas. Mas era na madrugada que se sentia ela mesma.

Toda quinta, sexta e sábado tomava um banho demorado, vestia roupas curtas se era verão e uma roupa mais comprida se fosse inverno. No verão, adorava paetês. As saias e vestidos eram sempre acima dos joelhos. Os lábios mais pareciam duas pimentas vermelhas. Até o seu olhar mudava, conforme podia perceber diante do espelho. Nunca tinha um roteiro certo, odiava coisas marcadas. Saía pela rua sem destino. Um dia estava perambulando pela Lima e Silva, em outro, caminhava pelos chiques da Calçada da Fama, ou então sentava-se em frente à um simples ponto de cachorro quente. Bebia muito, de tudo. Cerveja, tequila, vodka. Água só na cara. Cantava em videokês, dançava a lambada aposentada, com homens o maxixe. E depois ia para o motel. Quando não adormecia voltava para a noite, e começava tudo outra vez. Destino incerto, bebidas, música. Gargalhava até ficar sem voz. Conhecia muitas pessoas nessas peregrinações, mas não as cumprimentava se esbarrassem na rua durante o dia. Eram pessoas diferentes entre o espaço de tempo que é o entardecer. Mas a noite acaba, e toda a intensidade chega ao fim. Trabalho, pessoas, ônibus e horários.

Um dia não foi trabalhar, e não foi mais na terapeuta. As ligações não eram retornadas. Dalva foi considerada desaparecida. Isso é o que acontece na noite, entre tantas outras coisas que acontecem. As pessoas passam a desgostar de sua impossibilidade de extravasar. Mas Dalva fora apenas vítima de um acaso. Em uma sexta-feira muito quente de verão, foi atingida por uma bala assaltante debaixo do Viaduto da Conceição.

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Simples

Por Caroline Frantz

 

“Sorria! Não importa o quanto doa em você.”

Ela disse para mim.

E eu voei para longe disso tudo.

Brinquei com o sol que está lá, inalcançável para todo mundo.

Menos para mim.

Simplesmente porque ela me disse que eu posso ir aonde eu quiser.

 

Vem cá que eu levo você comigo.

Duvido você não gostar dessa festa.

 Na verdade tudo o que me diverte é uma grande festa.

E você vai ver como pode ser feliz com pouco.

Pouco pode ser muito.

Simplesmente porque ela me disse que o que vale é a sua diversão.

 

Se o arco-íris bater à sua porta, receba ele de braços abertos.

O que importa é a alegria que ele traz quando você o vê.

Assim, numa tarde de outono,

Numa tarde nublada, de um dia chato.

Você irá sorrir.

Simplesmente porque ela me disse que o arco-íris vale a pena.

 

E depois iremos pra casa.

Fazer o que você quiser.

Pintar as paredes de uma cor nova.

Dizer que somos bobos.

Cantar a velha canção.

Simplesmente porque a gente quer.

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Noite Fora do Eixo no Dr Jekyll

Fotos: Caroline Frantz e Júlia Crasoves

Texto: Caroline Frantz

Em uma noite do mais puro rock o Coletivo Veneta esteve presente capturando os melhores momentos das bandas Bleff, Seychelles e Subtropicais. Cada uma no seu estilo, surpreendeu nas suas apresentações. Nessa noite o que importava não era a quantidade, mas sim a qualidade do público. Encharcados de rock e paixão curtiram do primeiro ao último acorde.

Bem vindos a mais uma Noite Fora do Eixo no Dr Jekyll!

Banda Bleff - foto Júlia Crasoves

Banda Bleff - foto Caroline Frantz

Banda Bleff - foto Júlia Crasoves

Banda Bleff - foto Caroline Frantz

Banda Bleff - foto Júlia Crasoves

Banda Bleff - foto Caroline Frantz

Banda Bleff - foto Júlia Crasoves

Banda Seychelles - foto Júlia Crasoves

Banda Seychelles - foto Caroline Frantz

Banda Seychelles - foto Júlia Crasoves

Banda Seychelles - foto Caroline Frantz

Banda Seychelles - foto Júlia Crasoves

Banda Seychelles - foto Caroline Frantz

Banda Seychelles - foto Júlia Crasoves

Banda Subtropicais - foto Júlia Crasoves

Banda Subtropicais - foto Caroline Frantz

Banda Subtropicais - foto Júlia Crasoves

Banda Subtropicais - foto Caroline Frantz

Banda Subtropicais - foto Júlia Crasoves

Banda Subtropicais - foto Caroline Frantz

Banda Subtropicais - foto Júlia Crasoves

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Uma amostra do Festival Satolep Circus

O Veneta foi até Pelotas para cobrir o evento, entre 6 e 11 de maio. A música segue até o dia 18.

Texto e foto: Lola Sartori
Revisão e Edição: Ricardo Rodrigues 

Canastra Suja abrindo o festival no Foyer do Theatro Guarany

Após a cerimônia de abertura na sexta-feira (6), o som do trompete invadiu o Foyer do Theatro Guarany avisando que o Festival Satolep Circus recém começara, e que seriam quase duas semanas de muito trabalho e música. A banda pelotense Canastra Suja deu início não somente ao seu novo show como também à segunda edição do festival e, como de costume, a apresentação foi gostosa de se ver e ouvir. Além das músicas do disco Três Minutos Pra Água Ferver,  o show A Máquina da Loucura, inclui canções novas como Atônico, O Último Tango de Nelson, A Máquina da Mundo Repensada e Estranhos.

No segundo dia, foi a vez do público ir até o Galpão do Rock pra conferir o show das bandas Mascates, Freak Brotherz, Farenait e Os Brutais.  Deu para notar uma pegada bem forte de Arctic Monkeys nas guitarras dos Mascates, não que isso seja ruim, os integrantes conseguem fazer um som bem autoral, mas não dá pra negar a influência.
Freak Brotherz é uma banda que tem mais de 10 anos de carreira, então é incrível como o público se mistura, desde quem os acompanha no início, até quem está começando a se inserir no underground. É inegável a capacidade dos músicos e a forma como eles agitam as pessoas, mas pareceu um pouco Rage Against The Machine demais.
A Farenait foi, pra mim, a melhor da noite. O som da banda é quase indescritível, eles tem uma pegada bem psicodélica com um “q” de grunge na guitarra. Impressiona também o fato dos irmãos serem músicos ímpares, terem 20 e poucos anos e a banda existir há 10.
Para encerrar a segunda noite de festival, a banda foi Os Brutais, um power trio de puro rock’n’roll. O show animou a galera que não teve medo do relógio e permaneceu no Galpão até às 5 horas da manhã.

Já na terça-feira (10), o festival saiu dos palcos e foi ao Bistrô da SeCult (Secretaria de Cultura) para apresentar o Pcult (Partido da Cultura), suas propostas, atuações e gerar um debate para fortalecer a cultura na cidade. Entre, aproximadamente, 40 agentes culturais reunidos, o saldo de mais de 3 horas de debate foi positivo. Além de uma próxima reunião marcada, foi definida a coordenação do Pcult Pelotas. Haverá também um seminário para capacitação de agentes culturais e o mapeamento de entidades culturais da cidade.

A noite fria da quarta-feira (11) se dividiu em duas partes – a primeira no Theatro Guarany, no show de Marcelo Camelo. Apesar do som ter ficado um pouco embolado, a apresentação foi genial. Camelo é carismático e interage bastante com o público (vide que o próprio entrega as samambaias ao público), não é preciso citar que os fãs deliram quando a música tocada é do Los Hermanos, ainda que muitas vezes fosse difícil ouví-lo cantar, pois a voz do teatro praticamente lotado era mais alta. Destaque para a banda Hurtmold que o acompanha.
A segunda parte da noite fica por conta do João Gilberto (vulgo JG) lotado para assistir a Vade Retrô e Ian Ramil em seu primeiro show em Pelotas. Ian pareceu tímido no palco, mas, ainda assim, seguro de si e com belas composições. Felipe Zancanaro (guitarrista da Apanhador Só) acompanhou Ian na guitarra, mas surpreendeu ao tocar bateria em Segue o Bloco.  Por fim, uma das bandas da nova safra pelotense, a Vade Retrô com influências 60’s e 70’s rock, coloca o JG abaixo com suas guitarras rápidas e pulsantes.

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Pé na Porta com Apanhador Só – Parte 2

Parte 2 da matéria sobre o lançamento do Acústico-Sucateiro da banda Apanhador Só, dia 28/04 no Ocidente .

Texto: Lola Sartori
Foto: Caroline Frantz

Foto: Caroline Frantz

Com o Ocidente lotado, a Apanhador Só dá início ao show de lançamento do disco Acústico-Sucateiro, às 23:20h da noite quente de quinta-feira (28). Talvez pelo clima aconchegante do palco (foi montada uma sala de estar) ou pela expectativa dos novos arranjos, mas o fato é que a receptividade do público surpreendeu. Em meio a ralador, caixa de fósforos, conduíte, lata de rolo de filme, a conhecida bicicleta e outras sucatas, a banda inova com as canções tão bem feitas também na versão acústica. Sim, pois o novo disco, como dito na entrevista (http://migre.me/4pDKD), conta com nove faixas do primeiro cd e a inédita Na Ponta dos Pés.
A primeira música escolhida foi Nescafé e a subsequente, Prédio, estavam na ponta da língua de todos os presentes, que começaram o show bem empolgados. Ouvir a voz do Alexandre Kumpinski era algo difícil (principalmente para quem estava no mezanino, assim como eu), pois o Ocidente transformou-se em uma só voz.
Em Jesus, O Padeiro e O Coveiro, contou com a participação do músico e produtor Marcelo Fruet (que produziu o primeiro disco da Apanhador Só e masterizou o acústico), que na minha opinião, ficou melhor que a versão plugada, principalmente por ter utilizado o tecladinho de brinquedo, o qual fez toda a diferença. Logo depois, veio Pouco Importa uma das mais (se não a mais) conhecida música da Apanhador, igualmente impecável.

Foto: Caroline Frantz

Com ralador, panela, violão, cumbuca e pilão, Vila do 1/2 Dia virou uma verdadeira roda de samba, com direito a casais dançando juntos e o público uníssono no “Laiá, laiá, laiá…”. Depois do samba de Vila do 1/2 Dia, foi a vez de Maria Augusta surpreender. No início o arranjo era o mesmo, mas na metade da melodia houve umas paradinhas e partes da letra sendo faladas. Quando eu pensei que não teria mais como me espantar com a criatividade desses meninos (sim, meninos, pois eles têm só vinte e poucos anos!) eles mostraram que possuem uma capacidade ímpar para se reinventar. O que me lembrou a influência do Bob Dylan que o Alexandre comentou na entrevista que tinha. A batucada de Balão de Vira Mundo impressiona pela precisão da batida e Ramão deixa claro que uma gaiola de pássaros pode fazer toda a diferença. Bem-me-Leve, Na Ponta dos Pés (com a participação de Rafael Penteado tocando um isqueiro) e Descoloriu foram de tamanha delicadeza e sensibilidade que é capaz de emocionar qualquer pessoa. Já em Tom Zé o público acompanhou com palmas e alguns poucos casais dançando como se estivessem num forró. A música mal terminou e algumas moçoilas animadas pediam Damas, pedido feito e aceito. Porém, como estávamos num clima de sucata, os instrumentos da vez foram fita adesiva, cantoneira, sineta, pandeirola e um rádio dando notícias. É incrível como tudo encaixa perfeitamente nas melodias. A próxima foi E Se Não Der? uma baladinha gostosa de se ouvir tocada com cumbuca e pilão, antecipando Peixeiro que levantou o público com sua sacola de supermercado, móbile de chaves e vuvuzelinha. Por fim, com latão, trompetinho, saca, ovinho, ralador, a música mais aguardada da noite – Um Rei e o Zé – levou o Ocidente abaixo e botou todo mundo pra sambar.
        Se a proposta da Apanhador Só foi buscar nas sucatas uma maneira contemporânea de se expressar e se reciclar, tenho certeza que eles conseguiram isso com o Acústico-Sucateiro. Eles fazem parecer simples tocar uma gaiola de pássaros e encaixar o noticiário do rádio com a melodia da música. O que para muitos é descartável, esse quarteto porto-alegrense transforma em arte.

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Pé na Porta com Apanhador Só – Parte 1

O  Veneta esteve presente no Ocidente, na última quinta-feira (28), para entrevistar e assistir ao show de lançamento do álbum Acústico-Sucateiro da Apanhador Só. Confira abaixo a entrevista, que foi feita em duas partes.    

Foto: Caroline Frantz

Texto: Lola Sartori
Fotos: Caroline Frantz

– Como surgiu a ideia de fazer o CD Acústico-Sucateiro?

Felipe Zancanaro –  Quando a Carina Levitan tocava com a gente, ela fazia esse papel da percussão-sucata, da bicicleta e algumas coisas que a gente usa, ela já fazia na época, as panelas, principalmente. Balão é uma das poucas coisas que ela fazia que a gente não usa mais, nem sei porque. Inclusive, é uma boa ideia de voltar a usar. E ela saiu, foi morar em Londres,  a gente virou um quarteto e da percussão-sucata sobrou só a bicicleta nos shows plugados. Agora a gente começou a fazer muito pocket shows, tocar em livraria durante as turnês e a gente não queria só pegar o violão e tocar as músicas como a gente toca no show normal. A gente decidiu resgatar um pouco disso (de usar brinquedos e sucatas como instrumentos) pegar o violão e trazer essas percussões. Então foi muito natural, “ah nós precisamos fazer!”  e começamos a brincar com alguns arranjos, fizemos umas 5 ou 6 músicas  mais acertadas, as outras a gente improvisava, assim como vamos improvisar hoje aqui. Isso foi ficando bacana ao ponto de chegar e “pô, vamos registrar isso!”, mas não um segundo álbum da Apanhador, com inéditas,  só vamos registrar isso de uma forma bacana e aí que surgiu a idéia de estar na sala de casa, na casa do Alexandre (Kumpinski, vocalista da Apanhador Só), ele trabalha com áudio pra cinema,  ele tem um equipamento bacana ,a gente registrou na sala, gravou tudo ali e o Marcelo Fruet masterizou. E aí a gente, enfim, transformou isso num disco paralelo, digamos, um segundo disco paralelo, que não chega a ser nosso segundo álbum porque ele tem 9 canções do  primeiro e único disco e uma canção nova que chama Na ponta dos Pés, que é a única inédita do disco. E claro, agora a gente vai aprimorando e fazendo cada vez mais música. E agora vamos entrar nessa história e vamos fazer alguns shows desse jeito.

Fernão Agra – A ideia do acústico a gente teve de algumas necessidades né. Ano passado quando a gente tava em São Paulo e a gente começou a fazer várias entrevistas que precisavam de acústico – voz e violão, nós começamos a brincar com zíper de case e tal pra fazer as entrevistas. Daí a ideia foi evoluindo, a gente foi resgatando as velhas sucatas que a gente usava quando a Carina Levitan, que era a percussionista da banda, tocava.  Decidimos fazer um formato acústico pra fazer esse tipo de coisa. Esse tipo de pocket show veio da necessidade de fazer. Aí começaram a ficar legais (as músicas), os arranjos ficaram bons e a gente “Ah, vamos gravar um disco então…” “Por que não?” gravamos na casa do Alexandre, ele quem mixou, foi bem caseiro.

-Aí vocês trouxeram a casa do Alexandre pro palco…

Fernão Agra – Não exatamente a casa dele…

-Mas a sala…

Fernão Agra – É uma sala né, genérica.  Até hoje nós ensaiamos na garagem, onde temos um estudiozinho ali.

-E porque fazer no formato de fita cassete?

Fernão Agra – A fita cassete é o seguinte, hoje em dia todo mundo ouve mp3 né, o formato físico é um souvenir apenas.  O cd é quase tão velho quanto a fita cassete, hoje em dia, se for pensar. A gente já lançou um cd e porque não lançar uma fita cassete!?  A ideia foi essa, basicamente. E é bonitinho, é pequenininho, é gostosinho. É um objeto muito interessante.  Cd quase ninguém ouve, as pessoas ouvem mp3.

Felipe Zancanaro- A gente é da época da fita cassete e era uma coisa que rondava na nossa cabeça, mas quem deu o estalo foi a Juli Baldi, da Oi FM. A gente tava dando uma entrevista lá e tocando, essas coisas, e falando que ia gravar e tal e aí a gente tava conversando sobre isso, chegando ao ponto e ela “Vocês podiam lançar isso em fita cassete né!?” e a gente “Bah,  taí! Matou a charada!”. Porque tem muito a ver com o conceito, com a estética de ser, o resgate com uma reciclagem de música, de uma coisa quase não mais convencional pra se distribuir música né!?  E calhou muito bem pra o que a gente tava pensando fazer. Acho que tem tudo a ver com a estética que a gente tá procurando, quase como usar uma Holga pra fotografar a gente aqui.  (risos)

-É, nós entramos no clima Acústico-Sucateiro…

Felipe Zancanaro- É o lance de fazer uma coisa retrô ou vintage de buscar coisas antigas e/ou não tão usadas, enfim. Mas ao mesmo tempo tentar dar pra isso, usar isso, de uma forma um pouco mais moderna, mais contemporânea tentar levar isso pra outro lugar que não fique também só resgatando o passado, mas que a gente consiga reciclar isso que é muito a estética da fita também, a gente tem a ideia de trocar a fita cassete com o público. Entrar nessa história de reciclar, inclusive, sonoramente.

-Para gravar o Acústico-Sucateiro, vocês usaram algum processo de gravação analógico?

Felipe Zancanaro- Não, foi totalmente digital. Pela praticidade e pelo que a gente tinha a mão né. Era um acordo nosso, que seria um disco que não ia custar caro pra gente assim.  A gente não ia investir o que se investe pra se fazer um grande disco. E o resultado saiu muito melhor  que a gente pensava pela qualidade que a gente gravou e foi masterizando, deu um up gigante no disco. Como são instrumentos que não tem referencia  em termos sonoros,  eles também não existem um padrão de qualidade pra serem registrados. Acho que a tosquera da forma como a gente registrou, talvez tenha dado também a estética do disco assim. Inclusive, a ideia de que a gente não tinha estúdio que isolasse o som, então, o caminhão de lixo passava e o caminhão de lixo entrou na música. A gente resolveu usar a máquina de lavar porquq ela tava sempre lá. A gente ligou a máquina de lavar e fez um take com ela, que tem no disco também cachorro latindo, tudo isso foi entrando no disco aleatoriamente, a gente só foi dando uma ajeitadinha, uma encaixadinha e isso se fez pela falta de estrutura que também era uma proposta que a gente tinha.

-Já que tu mencionou sobre utilizar objetos e/ou brinquedos como instrumentos, como é feita essa escolha? Ou a escolha é aleatória?

Fernão Agra – O que a gente faz é pegar objetos da casa e ouvir eles, ver como se toca. Tipo, a gente pega alguma coisa, alguma coisa pra bater  a princípio, daí a gente vê se sai um som legal e põe pra dentro, se não sai, e têm várias coisas que não sai um som legal, daí a gente vê pelo som, pelo timbre mesmo que sai. A gente tenta encaixar da melhor maneira possível na música.

Martin Estevez –  Algumas coisas estavam na lá na casa do Alexandre e a gente sabia mais ou menos como usar, daí eu trouxe umas bugigangas de casa, Felipe trouxe uma bugigangas da casa dele. Aí é tipo “ah, vamos tocar um arranjo aí” daí quando vê, começa o Alexandre a puxar no violão e na voz, eu vou catando uns negócios aqui e o Felipe vai catando outros negócios  e o Fernão outros e quando vê “Ah, toca isso, toca aquilo” e é assim que vai saindo.

Felipe Zancanaro –  Agora a gente tá mais organizado, a gente tem uma caixa com tudo que a gente ainda não toca nas músicas que fica lá do nosso lado, quando a gente faz música nova a gente só puxa a caixa pro meio e vai tirando as coisas e vai usando…

Martin Estevez – Vai na espontaneidade… Vai pegando, vai vendo se fica legal, se não fica pega outra coisa.

Felipe Zancanaro – Mais algumas coisas tipo isso aqui (aperta a mini vuvuzela) veio pronto, a panelinha (toca a panelinha) né. Algumas coisas já tinham no som, outras a gente traz de casa e vê o que sai ali. Daí eu trago uma coisa que eu nem sei pra que serve direito e aí o Martin pega e desenvolve na hora e tem outros que nem o Walk Talk ou acabei de arrumar um laptop de criança daqueles que fazem  vozinhas até com uma portuguesa de portugal que fica falando.  E é uma doidera né. Mas daí são coisas mais desenvolvidas, tipo o Walk Talk eu sentei e fiquei uma semana desenvolvendo os timbres dele pra depois levar pra banda e tá e agora como a gente utiliza isso na música? Daí é porque eu nem tinha ideia assim…  foi até na época quase antes da gente começar a gravar que a gente foi colocando nas músicas pra ver o que saía assim… pra aprimorar um pouco mais os arranjos e tal, por aí…

-Como foi participar do Prêmio Açorianos de Música?

Felipe Zancanaro-Tesão total! Foi uma grande alegria! Foi nosso primeiro prêmio… Foi o primeiro prêmio que a banda ganha, prêmio de música.  A gente concorreu ao VMB mas não ganhamos nada…

-Aposta MTV…

Felipe Zancanaro- É, Aposta Mtv. Agora a gente concorreu em sete categorias (Compositor, Intérprete, Disco, Produtor Musical, Produtor Executivo, Revelação, Projeto Gráfico) mas levamos três. Que talvez eram as três mais importantes pra gente assim,  que é Melhor Projeto Gráfico, que tá primoroso, feito pelo Rafa Rocha; Produção Musical que é do Marcelo Fruet e Melhor Disco na categoria Pop Rock, que é uma bênção. Enfim, poder frequentar e tá num prêmio dividindo isso com o Vitor Ramil e tantas figuras ilustres da música gaúcha e subir no palco e  levar a estatueta pra casa é fantastico! A gente saiu de lá tentando fazer som com ela já, mas a gente pensou que ia ser uma afronta usar na percussão hoje, daí  agente vai esperar mais um tempo (risos). É sério.

Fernão Agra –  Foram sete indicações né? Se a gente perdesse todas seria um fracasso, ia ser um desastre. Então, Melhor Disco eu, sinceramente, não esperava ganhar. Melhor Disco Rock né, mas nós ganhamos. Eu fiquei muito feliz, nós ficamos muito felizes. Quem não ficaria? Foi mais ou menos como nós imaginávamos.

-Qual a expectativa para o show de hoje?

Fernão Agra – Maravilhoso, vai ser fantastico! A gente tá ensaiadinho, vai ser lindo, tem bastante gente ali embaixo já. A gente montou um cenário, vai ser uma bela noite. O Ocidente também é muito nossa casa. Nós lançamos nosso primeiro EP aqui Embrulhado Para Levar de 2006.

Felipe Zancanaro-  A melhor possível. A ideia do cenário da sala é traduzir a gente no ambiente onde a gente fez o disco assim, onde a gente ensaiou, onde a gente gravou. Pra gente se sentir a vontade porque é um formato que a gente não gosta de se apresentar de frente pras pessoas. Legal é ser envolvido, tá em contato uns com os outros no palco e é aconchegante, enfim, traduz bastante. Tá bonito o palco, tá ficando pelo menos. Carolzinha (Carol Zimmer) tá fazendo um belo trabalho e a expectativa de público é ótima também. Pelo menos pela internet, as respostas que a gente tem tido do disco tem sido muito boas, todo mundo tá gostando, tá entendendo que é um disco desleixado. A gente não se preocupou muito em deixar as coisas certinhas, tem muito deboche, muita brincadeira de voz e dos instrumentos, nada muito padrão e totalmente debochado assim, então é uma coisa que poderia ser um pouco fora de um certo padrão.

-Mais na brincadeira…

Felipe Zancanaro- É totalmente na brincadeira, no deboche. Claro, um deboche pensado pra  ser um deboche. Não totalmente, tem muita coisa, a grande parte das bobagens que a gente faz no disco são aleatórias que rolou na hora de gravar e a gente depois só foi lapidando aquilo. Daí as pessoas estarem entendendo isso e gostando desse clima é ótimo também.

Foto: Caroline Frantz

-O que vocês tem de sucateiro no dia-a-dia?

Felipe Zancanaro- Eu tenho o péssimo ou ótimo hábito de levar tudo que eu acho na rua pra casa. Esses dias, eu tava andando na minha rua e achei, tinha uma especie de um móvel desses de sofá, que fica no canto do sofá, e eu arrastei pra dentro de casa assim. Tá lá e eu nem sei direito o que eu faço com ele. E tem muita coisa que tu acha na rua que é bacana, eu costumo carregar. Minha mãe sempre lavava as calçasdo meu pai e sempre tinha pregos, parafusos e porcas que ele achava na rua e deixava no bolso, aí lavava e estragava a máquina de lavar direto. Acho que herdei dele de levar tudo que eu acho na rua pra casa. Acho que vai servir pra alguma coisa, tá tudo entulhado lá, um monte de coisas.

Fernão Agra-  Geralmente é tecido de cozinha, placa de carro, coisas metálicas em geral. Qualquer coisa que tire um bom som. Pode ser roda de carro, asa de avião, qualquer coisa que solte som. Não tenho preconceitos.

Martin Estevez – Eu  guardo um monte de coisa velha, muita coisa. Tem uma coleção gigante de gibi, revista velha, muitos mesmo.  E monte de boneco, monte de coisa, coisas que as pessoas chegam lá em casa e dizem “Bah, tu tem isso aqui ainda?” que eu vou guardando muita velharia, sempre foi, sempre guardei.

-Mas isso é do ser humano de ser apegado aos seus pertences…

Felipe Zancanaro- É , é. Mas eu até tenho que me livrar desse hábito, é muito ruim, tu vai te apegando a coisas que não valem a pena o teu apego. Inclusive, eu joguei muita coisa fora que eu me arrependo profundamente agora nessa fase da banda, de ter jogado fora, mas é a luta contra ti próprio.

Foto: Caroline Frantz

-O que vocês acharam do show?

Alexandre Kumpinski – Pra nós foi uma nova experiência, muito interessante porquw a gente nunca tinha feito um formato Acústico-Sucateiro na noite. Só na sala ou em alguns teatrinhos pequenos, já tinha rolado assim e foi do caralho! É um formato que é um pouco mais silencioso né, então dá pra ouvir melhor o público, dá pra ter essa troca, esse contato com o público mais direto que quando todos os intrumentos tocando, guitarra, baixo, bateria… Bah, é maravilhoso quando o público canta junto! E isso tem sido uma constante aqui em Porto Alegre, a galera cantando junto meio que parece que a banda toca melhor,  a gente relaxa mais e tudo flui melhor do que outros shows. Antigamente ninguém cantava junto porque a gente não tinha o disco gravado e as pessoas não conheciam as músicas ainda né. Só poucas pessoas conheciam as musicas dos shows, só quem ia muito conseguia decorar, mas agora a galera tem na ponta da língua as letras né, daí é muito emocionante tá ali tocando e as pessoas cantando junto é do caralho.

-Dia 12/05 vocês abrem o show do Marcelo Camelo em Porto Alegre. Como vocês receberam o convite?

Alexandre Kumpinski- A gente tava em São Paulo, fazendo uma turnê quando o Tito (produtor da Apanhador Só) nos ligou. O engraçado é que ele tinha que confirmar se a gente ia tocar ou não até meio-dia e aí ele conseguiu falar comigo 11:55h. Foi no último momento assim, se não eles iam marcar com outra banda, enfim, correr atras de mais alguém.  Foi uma surpresa boa, vamo lá, tentar meter o pé na porta!

-Tem muita gente que compara o som da Apanhador Só e, principalmente, a tua voz com Los Hermanos. Como que tu recebe isso?

Alexandre Kumpinski – Acho natural…

-É uma influência?

Alexandre Kumpinski – Sim, sim, é uma influência, é uma coisa que a gente ouviu. O que eu costumo dizer, que eu gosto que as pessoas saibam, é que não é a única influência né.

-Quais as outras influências?

Alexandre Kumpinski –Bah são muitas, cada um tem suas influências pessoais. Eu tenho muita influência do Sérgio Sampaio, do Walter Franco,  do Chico Buarque, do Caetano e no rock, sei lá, do Wilco, Pavement, dos Beatles, do Dylan.

-Para finalizar, qual a proximidade da Apanhador Só com o Fora do Eixo? E qual a opinião de vocês sobre o FDE?

Alexandre Kumpinski – A gente fez uma Noite Fora do Eixo em São Paulo, fizemos em São Carlos, vamos fazer uma em Vitória, vamos fazer o Satolep Circus dia 13, é isso. E antes, já fizemos Grito Rock em Santa Maria, em Porto Alegre, já fizemos um monte de coisa desde que a banda começou.
Eu acho ótimo, principalmente para as bandas que estão começando que é o lance de ter a oportunidade de ter palco pra tocar e tal. Então é muito importante, pra bandas que não tem condições de circularem sozinhas, se atrelarem a uma organização maior que vai ajudá-las desde que seja bom para os dois lados, eu acho que é ótimo.

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